Portugal e o cavalo partilham uma história de séculos. Muito antes de existirem escolas de equitação como as conhecemos hoje, o cavalo era parte inseparável da vida militar, agrícola e aristocrática portuguesa. Perceber esta história é também perceber porque é que a equitação portuguesa tem uma identidade tão distinta no panorama mundial.
As Origens — O Cavalo na Formação de Portugal
A Reconquista e o papel do cavalo na fundação do reino
Quando D. Afonso Henriques fundou o reino de Portugal no século XII, o cavalo era o elemento central de qualquer força militar relevante. Os cavaleiros medievais portugueses — à semelhança dos seus homólogos europeus — eram definidos pela sua relação com o animal.
A equitação militar da época era funcional e brutal: o cavalo precisava de ser rápido, ágil e capaz de manter a calma em combate. Estas exigências moldariam, ao longo de séculos, o desenvolvimento de uma raça equina própria: o Cavalo Lusitano.
Os Descobrimentos — o cavalo como símbolo de poder
Durante os séculos XV e XVI, com a expansão marítima portuguesa, o cavalo ganhou um novo papel: símbolo de poder e prestígio da coroa. As grandes procissões e entradas régias incluíam sempre cavalaria ricamente equipada. A equitação começou a afastar-se do puramente militar e a aproximar-se do espetáculo e da arte.
O Cavalo Lusitano — A Raça Nacional
O Cavalo Puro Sangue Lusitano é uma das raças equinas mais antigas do mundo, com origens que remontam ao cavalo ibérico da Idade do Bronze.
Reconhecido oficialmente como raça em 1966, o Lusitano distingue-se por:
- Inteligência e sensibilidade — aprende rapidamente e responde a comunicações subtis
- Agilidade e equilíbrio — naturalmente predisposto para a alta escola
- Temperamento — corajoso mas dócil, ideal para trabalho de dressage
- Morfologia — pescoço arqueado, garupa musculada, linha dorsal curta
Portugal é hoje um dos principais criadores e exportadores de Lusitanos do mundo. A raça é especialmente valorizada para a equitação clássica, o trabalho de toureio a cavalo (rejoneo) e as competições internacionais de dressage.
A Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE)
A Picaria Real
No reinado de D. João V (século XVIII), a corte portuguesa atingiu o seu auge de esplendor. A Picaria Real, criada para a formação dos cavaleiros da nobreza, tornou-se um centro de excelência da alta escola clássica — a forma mais refinada de equitação, onde o cavalo executa movimentos de grande complexidade técnica em total harmonia com o cavaleiro.
O mestre mais influente desta época foi Manoel Carlos de Andrade (1736–1815), cujo tratado Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria (1790) é até hoje uma referência da arte equestre ibérica.
A EPAE hoje
A Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE), sediada no Palácio de Queluz e com espetáculos regulares no Picadeiro de Belém, preserva e apresenta ao público esta tradição de séculos.
Os espetáculos da EPAE — com cavaleiros em trajes históricos do século XVIII montando Lusitanos em exercícios de alta escola — são únicos no mundo e reconhecidos pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade.
Exercícios de alta escola apresentados na EPAE:
- Piaffe — trote em suspensão no mesmo lugar
- Passage — trote muito recolhido com elevada suspensão
- Levade — o cavalo equilibra-se apenas nos posteriores, num ângulo de 35°
- Courbette — a partir da levade, o cavalo avança em saltos sobre os posteriores
- Croupade e Capriole — saltos acrobáticos com os quatro membros no ar
A Equitação Portuguesa vs. a Escola Clássica Europeia
A equitação clássica europeia tem dois grandes centros de referência: Viena (Escola Espanhola de Equitação) e Lisboa (EPAE). Embora partilhem raízes comuns no renascimento italiano, as duas tradições divergiram ao longo dos séculos.
| Escola Portuguesa | Escola Espanhola (Viena) | |
|---|---|---|
| Raça principal | Lusitano | Lipizaner |
| Estilo | Mais campeiro, influência toureio | Mais académico, palácio |
| Equipamento | Sela à portuguesa, freio de alta escola | Sela vienense |
| Apresentação | Traje do século XVIII, ar livre e interior | Uniforme militar, picadeiro coberto |
Ambas são reconhecidas como patrimónios vivos da cultura europeia.
A Equitação Desportiva em Portugal no Século XX
Com os Jogos Olímpicos modernos, a equitação tornou-se desporto competitivo internacional. Portugal tem participado nos Jogos Olímpicos em equitação desde os anos 1950, com destaque para:
- João Calhau — múltiplo campeão nacional de saltos
- Luís Valença — adestramento internacional
- O Rejoneo (toureio a cavalo) como manifestação da equitação tradicional portuguesa nas touradas
A Federação Equestre Portuguesa (FEP), fundada em 1928, organiza hoje centenas de provas nacionais anuais nas modalidades de saltos, dressage, endurance, volteio e atrelagem.
Da História à Prática — Equitação em Cascais Hoje
Esta tradição milenar vive nos centros hípicos espalhados por todo o país. Em Cascais, o Centro Hípico da Quinta da Marinha é um dos maiores e mais completos da Península Ibérica — um espaço que combina infraestruturas modernas com o respeito pela tradição equestre portuguesa.
A Escola de Equitação Miguel Alves, com sede neste centro, oferece aulas de equitação para todos os níveis, desde os primeiros contactos com o cavalo até ao treino de competição — mantendo viva a ligação entre a tradição equestre portuguesa e a prática contemporânea.
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